Ilustração de Felipe Tognoli


terça-feira, 15 de maio de 2012

Os três coiotes


Eram três coroas, três tempos dos quarenta: início, meio e fim. Tinham os tons de grisalhos, barriguinha cervejeira e uma disposição erótica típico dessa fase masculina. Sentados num calçadão na vizinhança, tomavam umas cervejas e observavam o mundo, menti. Olhavam descaradamente, uma jovenzinha que passava para lá e para cá, carregava um celular, acessório básico da sua idade, fala com alguém, ora parava ora caminhava, sem motivo e sem direção, só pra justificar o termo telefonia móvel.  Ela desligou o aparelho e colocou no colo como a Larrisa Riquelme, daquele momento em diante os três tinham conversa pra tarde inteira. Na verdade a adolescente foi tema de milhares de conversas, depois daquele dia, sentavam no mesmo horário, a desculpa era mesma, tomar umas cervejinhas e colocar o papo em dia depois do expediente. Naquele dia reviveram o passado, cada um contou uma bravata dos tempos de conquistas. E que nem o Coiote olhando o Papa-Léguas, ficavam os três martelando qual a melhor abordagem. Foi assim que começaram a pensar na cantada ideal para chegar perto da gatinha. O mais novo, mais moderninho, saiu com essa:  “Gata, me dá seu telefone que eu te mostro que nós temos uma ligação”, os outros dois riram, mas ele retrucou dizendo que como ela sempre estava de celular, era um excelente xaveco (aqui no Ceará, chama-se queixo). O segundo, mais rabugento e estressado, usou do seu peculiar mau humor e disse que tentaria assim: “Eu tive um péssimo dia e ver uma garota sorrir sempre me faz melhorar. Então, você pode sorrir para mim?”. Já o mais velho na temperança da idade escolheu a seguinte cantada: “Com licença, mas qual é a cantada que funciona melhor com você?”. Depois dessas sugiram outras em sequência aleatória era coisas do tipo: “Gata, você não é a Garota de Ipanema, mas é a coisa mais linda e cheia de graça que já vi”;  algo mais ousado como: "Todas essas curvas, e eu sem freio nenhum...." ou romântica como: "Você acredita em amor à primeira vista, ou devo passar por aqui mais uma vez?”. Por fim o mais velho fecha o recital de cantadas como essa: “Vou chupá-la tanto que vai precisar tomar soro na veia”. Depois dessa, o mais sedento foi alvo de todas as chacotas. Enquanto discutiam qual a melhor investida, ela vaidosa e desdenhosa desfilava na outra margem da rua.  Esse ritual demorava horas, terminava ao anoitecer.

* * *
A ninfeta entra no carro, trocam beijos e a mão dele vai, automaticamente, nas suas coxas trabalhadas, não demora e já estão em um sítio, a sombra de um cajueiro. É cedo e o clima agradável, ele estende uma toalha e ela se oferece em banquete, nua caem folhas verdes sobre sua pele branca, ele a observa sedento, se atira entre suas pernas... Ela tem sabor doce de caju... Ele delira e ouve uma voz macia, não entende o que é dito, mas gosta do som... Continua... A voz insiste, ouve agora claramente: Acorda, acorda meu amor, já está atrasado para trabalhar! Ainda sonolento ouviu: “bip-bip!!!” (A. Z. Silva)


        

Promoção

A Derma Solution faz uma promoção para as leitoras e leitores do blog, preencha o cadastro e coloque no campo COMO CONHECEU: O Mundo Antes de Mim. Todos que se cadastrarem iram participar do sorteio de um protetor solar:


PHOTOPROT® fotoprotetor fondant com cor de base clara que proporciona ampla proteção contra os efeitos da radiação solar (UVA e UVB). FPS 100 Color - Claro contém os mais modernos filtros que, somados auxiliam em uma proteção mais eficiente e duradoura.
CLIQUE E PARTICIPE

domingo, 13 de maio de 2012

Minha mãe é...

Minha mãe é...
chata, quando quer controlar minha vida.


mãe é...
irritante, quando não satisfeita de colocar um prato de pedreiro ainda põe mais duas colherzinhas de reforço.


Minha mãe é...
melosa, por tudo chora, quando estou longe por estar longo e, quando perto por estar perto.


Minha mãe é...
atrapalhada, quando não consegue dividir a sua atenção com seus filhos.


Minha mãe é...
submissa, quando serve a todos e coloca seu prato por último na mesa de domingo.


Minha mãe é...
vingativa, quando joga praga pelas minhas desobediências.


Minha mãe é...
Sem-noção, quando fala de mim como se ainda tivesse sete anos.


Minha mãe é...
perversa, quando com um sorriso sádico diz que havia me avisado.


Minha mãe é...
carente, quando mesmo depois dos melhores presentes, dos mil beijos e 600 abraços e ainda quer mais.


Minha mãe é...
foda, quando depois de dizer tudo isso me abre um sorriso e me faz sentir o homem mais amado do mundo!


Minha mãe é Única!  (A. Z. Silva)


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Amor de Amantes




Odiava te amar...
Quando longe de mim, perto somente o frio;
Quando mandava mensagens e não conseguia resposta;
Quando ficava em OFF e eu esperando ON.

Odiava te amar...
Quando em noites de insônia, não sonhava contigo;
Quando ficava com minhas lembranças e sem sua voz;
Quando em dias especiais, nenhum presente.

Odiava te amar...
Quando não era o primeiro a lhe deseja bom dia;
Quando ao dormir não lhe dava boa noite;
Quando não participava dos teus almoços de domingo.

Odiava te amar...
Quando em dias de calor, eu suava sozinho;
Quando tua boca beijava boca que não era minha;
Quando teu corpo desfalecia nas mãos do Próximo;

Odiava te amar...
Quando em encontros de meia hora, pouco conversamos;
Quando nas camas de motel o tempo era nossa maior preocupação;
Quando não olhava nos meus olhos, mas nos ponteiros do relógio;

Odiava te amar...
Quando em mesa de bar estava ao lado de todos e longe de mim;
Quando no face tinha relacionamento sério e não era eu;
Quando no meio da multidão nos sentíamos sós.

Odiava te amar...
Quando em silêncio, só eu ouvia o eu te amo preso na garganta;
Quando te desejava com a mão e não com seu corpo;
Quando te olhava em vitrine, não podia te tocar.

Eu odiava te amar... (A. Z. Silva)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Priscila - As mulheres do meu melhor amigo




A sanha de conquista do meu amigo não tem limites. Já há tempos usava o MSN como meio de conquista, bem verdade, que desde os tempos do ICQ, utilizava suas habilidades de sedução nos meios de bate-papo. Tinha entrado em chats, mas foi num site de relacionamento que se exercitou e exibiu-se na paquera virtual: o Badoo. Trata-se de um site no qual homens e mulheres se cadastram, preenchem um perfil, alguns desses são fake, mas no geral, guardam uma veracidade. Na sua faixa etária de interesse entre 24 e 40 anos, há mulheres pra todos os gostos: morenas, loiras, ruivas, sexy, tímidas, atrevidas, serenas, algumas com carinhas de santas e outras nem tanto. Ele me contou que tremia quando as via em fotos sensuais em cima de camas ou agarradas em ursinhos, fotos adolescentes em corpinhos acima de trinta. Ficava incomodado com os álbuns em que elas apareciam em bailes de formatura, casamentos, odiava as que faziam gestos com as mãos, como coraçõezinhos, dedinhos em formato de play, e/ou os excessos de caras e bocas e maquiagem. Então a cada entrada, seu filtro ia se refinando. Quem passava no seu processo seletivo ia se acumulando nos possíveis encontros. Já estava desistindo, pois a interatividade que esperava não acontecia. Mas quando do penúltimo “não” da noite, a mulher que se apresentou no jogo dos encontros – Priscila – o paralisou. Ela era morena no início do álbum e uma linda loira no final, suas fotografias revelavam a elegância da sua idade, mulher de trinta. Ele colocou “sim” para possível encontro, ela imediatamente respondeu “sim” também. Ela estava on-line, conversaram no chat do site, dez minutos depois estavam no MSN. Do Messenger para um barzinho foram dois dias, do barzinho para cama, questão de horas. Da cama para o coração, segundos depois do beijo de despedida. Ele que não acreditava, viveu um romance daqueles de mais de um ano. Ela ensinou-lhe coisas de finanças, qualificou-o com saídas para lugares que nunca iria com seus próprios pés e recursos. De cuidados afetivos a dignidades de roupas de grife, ela o presenteou com tudo que podia.  Não fazia por troca, mas por generosidade, homem com ela chegava de um jeito e saía sempre melhor. Há mulheres que têm o dom, adubam o homem, ele cresce e vai embora. O meu amigo foi embora, sem muita explicação, no dia em que partiu carregava ela em quase todas as partes do corpo, menos no coração. Ela lhe deu gostos e manias, conhecia as suas antigas e as novas, não eram novidades. Ele ficou off para ela, não o encontrava no celular, no msn, face... então, lembrou: será que ele voltou ao Badoo? Montou um perfil falso, era ela melhorada, tinha acrescido alguns detalhes que ao longo do romance descobriu que ele gostava. Passou três horas procurando por ele no mesmo jogo de encontros. Lá estava ele, agora mais lindo e melhorado que antes, convidou para uma conversa. Começaram os diálogos: “O que procura?”, “casado?”, “gosta de cinema, barzinho, balada?”, mas ela tinha um propósito, saber por que ele foi embora. A conversa foi evoluindo, e para cada pergunta, uma resposta, curiosamente franca. Foi inevitável falar do último relacionamento de ambos, e honestamente iam falando ao mesmo tempo um do outro.  Ela falava dele e ele dela. Foi uma estranha terapia de casal, falavam das suas mágoas, reconheciam qualidades, defeitos, nos momentos mais picantes falavam do que gostavam no sexo de cada um. Porém, passadas mais de duas horas de conversa, ela não tinha conseguido seu objetivo. Resolveu partir para a ofensiva, e perguntou: por que você a deixou? Ele já estava desconfiando, tantas semelhanças entre duas histórias que deveriam ser estranhas. Quando ele ia responder, ela, indignada por horas de ansiedade do outro lado da sala, fez um comentário que se revelou...  Ele apenas disse: encerremos nossa conversa por aqui.  O acaso começa histórias, por que o acaso também não pode terminá-las? Perguntei por que se separaram. Ele fechou nosso chat e encerrou a conversa comigo também. (A. Z. Silva) 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Iguais: amor diferente?





Ninguém ama o espelho, Narciso morreu nesta ilusão.
Amamos o outro e o outro nunca é igual a gente, desejamos o que não temos, somos almas incompletas e carentes e o que precisamos está sempre fora da gente. Às vezes, desavisados achamos que o outro é a nossa cara...  Não acredite, somos únicos e outro também.  Dito isso, não somos iguais, somos todos diferentes. Então, nunca amamos igual.

* * *

Quando foi olhada pela primeira vez, aquela mulher madura, presa num corpo hétero (diferente), tremeu, ficou insegura, mas atraída pela sensação nova que lhe percorria a espinha. Tinha acumulado na vida, cantadas, beijos, traições e uma dúzia de danações sexuais. Não era muito, mas lhe deixava a convicção que viverá suficiente dessas coisas. Mas o olhar pequeno e cortante com adaga daquela jovem lhe quebrou a arrogância típica das pessoas que acreditam ter vivido tudo. Ela fez uma abordagem clássica, não deveria entranhar, era igual a tantas outras dos diferentes. Sentou a sua frente, fitou como predador a presa, suavizou com um sorriso pretencioso, segurou na sua mão com a firmeza acolhedora de quem protege, entregou-lhe algo e disse sem rodeios: te desejo. Antes que a outra esboçasse reação, deu-lhe um beijo úmido e quente, tinha mais paixão do que surpresa. Desfalecida, presa dominada, entumecida e embriagada, cedeu corpo e alma aquela novidade. Por segundos esqueceram todas as diferenças de: idade, intelectual, social, estética e de orientação sexual. Eram igualmente apaixonadas. Não havia uma diferença a ser considerada, havia uma sincronia em seus movimentos, todos seus fluidos corriam na mesma direção. Sem fôlego, se separaram. Voltou ao seu mundo, sem entender e sem se entender. Deitou do lado de cinzas apagadas, naquela noite não era igual ao seu companheiro, fervia seu sangue e suas entranhas, era igual aquela jovem cheia de desejo e vida. (A. Z. Silva)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Saudade




Minha saudade tem cheiro,
Tem aroma de flores
Tem essência de tutti-frutti
Tem no teu pescoço seu lugar de morada.

Minha saudade tem forma
Tem pernas roliças
Tem bunda empinada
Tem um olhar convidativo ao pecado.

Minha saudade tem umidade
Tem o molhado dos teus grandes lábios
Tem o vapor da sua pele
Tem o suor retido nas roupas depois dos nossos encontros.

Minha saudade tem endereço
Tem uma rua morta
Tem o CEP da distância
Tem um portão fechado e uma janela aberta.

(A. Z. Silva)


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...